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CARTA PÚBLICA DE SOLIDARIEDADE À PROFESSORA ZARA FIGUEIREDO

7 / 07 / 2026

A UNEafro Brasil e o Instituto de Referência Negra Peregum vêm a público manifestar solidariedade integral à professora Zara Figueiredo, diante do constrangimento público, dos ataques racistas e das tentativas de desqualificação dirigidas à sua trajetória, à sua presença institucional e ao lugar político que ocupa na educação brasileira.

Há episódios que não podem ser tratados como ruído de rede social, excesso de opinião ou disputa corriqueira. O que se passou contra Zara é expressão de algo muito mais antigo e profundo: a reação violenta de uma sociedade que ainda não aceita ver mulheres negras, intelectuais negras, gestoras negras e militantes comprometidas com a justiça racial ocupando espaços reais de decisão.

O Brasil sabe conviver com a presença negra quando ela está no lugar da dor, do serviço, da subalternidade ou da morte. Mas se incomoda quando essa presença pensa, dirige, formula, ensina, decide e governa. É aí que a máscara cai. É aí que o racismo abandona o disfarce da cordialidade e mostra sua face política.

Zara Figueiredo representa, neste momento, uma referência importante para todos nós que lutamos por uma educação pública comprometida com a democracia, com a diversidade, com a reparação histórica e com o direito de cada criança, jovem, adulto e idoso deste país existir plenamente dentro da escola. Sua atuação afirma uma ideia simples e radical: a educação brasileira não pode continuar sendo construída contra o povo negro, contra os povos indígenas, contra as periferias, contra as pessoas com deficiência, contra as mulheres, contra a população LGBTQIA+ e contra todos aqueles que historicamente foram empurrados para fora do projeto de nação.

Para a UNEafro Brasil, que nasceu da organização popular, dos cursinhos comunitários, da luta pelo acesso da juventude negra e trabalhadora à universidade pública, defender Zara é também defender a educação como campo de disputa. Nós sabemos, pela experiência concreta dos nossos núcleos de base, que a escola e a universidade nunca foram neutras. Elas sempre ensinaram alguma coisa sobre quem pode sonhar, quem pode mandar, quem pode falar, quem pode ocupar a ciência, a literatura, a política e o futuro. Por isso, lutamos para que o conhecimento deixe de ser privilégio e volte a ser direito.

Para o Instituto Peregum, que atua na produção de pensamento, incidência política, formação e fortalecimento das lutas negras no Brasil, a presença de Zara em um espaço estratégico do Estado brasileiro tem sentido histórico. Não porque uma pessoa sozinha resolva a brutalidade das desigualdades nacionais, mas porque sua presença ajuda a abrir caminho, deslocar estruturas, tensionar pactos antigos e afirmar que não haverá democracia verdadeira sem enfrentar o racismo como fundamento da vida social brasileira.

É exatamente por isso que os ataques aparecem.

Eles não atacam Zara apenas pelo que ela fez ou disse. Atacam o que ela simboliza. Atacam a possibilidade de uma educação pública atravessada pela memória negra, pela igualdade racial, pelos direitos humanos, pela inclusão e pela diversidade. Atacam porque sabem que, quando nossas referências chegam a determinados lugares, levam junto uma história inteira: levam as mães que seguraram o país nas costas, os jovens assassinados antes dos 25 anos, as crianças que estudam em escolas sem estrutura, os cursinhos populares, os quilombos, os terreiros, as periferias, os movimentos sociais, as salas de aula improvisadas, as bibliotecas montadas com doação, os professores que trabalham sem aplauso e a teimosia de um povo que nunca aceitou desaparecer.

A extrema direita brasileira fez do ódio um método. Fez da mentira uma linguagem. Fez do racismo uma ferramenta de mobilização. E, quando encontra uma mulher negra em posição de responsabilidade pública, tenta repetir a mesma operação de sempre: constranger, ridicularizar, intimidar, desumanizar e isolar.

Não aceitaremos.

Racismo não é opinião. Violência política não é liberdade de expressão. Ataque racista não é crítica democrática. O debate público brasileiro precisa parar de proteger covardes atrás da palavra “polêmica”. Quando uma liderança negra é atacada por aquilo que representa, todas as organizações comprometidas com a democracia têm o dever de se posicionar.

A UNEafro Brasil e o Instituto Peregum se somam às vozes que reconhecem em Zara Figueiredo uma trajetória séria, necessária e profundamente conectada aos desafios do nosso tempo. Sua presença honra a luta por uma educação pública que não tenha medo de dizer a verdade sobre o Brasil. Uma educação que reconheça o racismo, enfrente desigualdades, amplie direitos, proteja diferenças e ajude a construir um país em que a dignidade não seja privilégio de poucos.

Zara não está sozinha.

Ao contrário: quando atacam uma das nossas referências, reacendem uma rede inteira de memória, cuidado e luta. Somos muitos. Somos muitas. Viemos de longe. Aprendemos com quem abriu caminho antes de nós que nenhuma conquista negra permanece de pé sem organização, coragem e solidariedade concreta.

Nossa resposta ao racismo será sempre coletiva.

Seguiremos defendendo Zara Figueiredo, defendendo a educação pública, defendendo as políticas de diversidade e inclusão, defendendo a presença de mulheres negras nos espaços de decisão e defendendo o direito do povo negro de não apenas resistir ao Brasil, mas também de reconstruí-lo.

Com respeito, reconhecimento e firmeza,

UNEafro Brasil
Instituto de Referência Negra Peregum