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Retomada do Firminas e Mahins fortalece acompanhamento e educação integral de meninas negras e imigrantes

2 / 04 / 2026

Integrante do Programa Malala Peregum, iniciativa entra em seu segundo ano valorizando trajetórias, ampliando estratégias de permanência escolar, e com vistas às agendas nacionais e internacionais de educação, raça e gênero

Dando continuidade às ações iniciadas em 2025, o projeto Firminas e Mahins retoma suas atividades em seu segundo ano, reafirmando o compromisso com o acompanhamento educacional e a permanência de meninas negras e imigrantes na escola pública. Nesse contexto, a iniciativa segue com sua atuação na EMEF Duque de Caxias, unidade da rede municipal de São Paulo com expressiva presença de estudantes migrantes, sobretudo oriundas de países da diáspora africana. Como destaca Adriana Moreira, coordenadora da área de educação do Instituto Peregum: “Nesta retomada, a gente continua objetivando estar próximas das meninas e valorizar suas trajetórias, tendo em vista o impacto nas suas vidas e consequentemente nas comunidades”.

O encontro de retomada reuniu as alunas participantes e a equipe do projeto, marcando o início das atividades que acontecem duas vezes por semana,  contribuindo para a ampliação do tempo de permanência das meninas na escola em 4 horas a mais por semana, nos quais são oferecidas atividades cujo objetivo é ampliação do repertório cultural e fomento da cultura escrita por cultura negra, em especial, das linguagens literária e do teatro, conforme preconiza o artigo 26-A da Lei nº 9394/96 alterado pelo Lei 10.639/03.

Também foram distribuídos kits Firminas e Mahins que é constituído de material escolar personalizado,  bem como itens de autocuidado, contribuindo, desta maneira, para a dignidade menstrual,  para a saúde mental e para a permanência na escola. 

Nesse sentido, a programação incluiu uma roda de conversa dedicada a temas como: o lugar que as mulheres negras ocupam no mercado de trabalho; os principais desafios enfrentados pelas meninas negras e imigrantes para permanecerem na escola. Como mostra a pesquisa Juventudes Negras, realizada pelo Em Movimento em parceria com a PerifaConnection e a UNEafro Brasil: jovens negras representam mais de 70% do trabalho doméstico na faixa etária de 16 a 29 anos. A partir dessa realidade, Adriana Moreira ressaltou: “Há uma miríade de desafios que a sociedade brasileira precisa enfrentar para garantir a permanência de adolescentes na escola. Entretanto, quando falamos da permanência escolar de meninas negras e imigrantes, definitivamente, há questões sensíveis a serem enfrentadas, e pouco tratadas: a associação direta desse grupo populacional à serviços de cuidados e a sua invisibilidade enquanto sujeito de direitos. O cotidiano dessas meninas é demarcado pelo trabalho dos cuidados, o que as impedem de se dedicar ao estudo para terem um melhor desempenho e/ou de permanecer na escola. Por exemplo, quando a política do encarceramento em massa atinge a família dessas meninas, e a realidade da família se volta para a garantia de direitos mínimos do parente que foi encarcerado toda a responsabilidade dos cuidados com a casa, dos irmãos passam a ser responsabilidade delas.” 

Por sua vez, a estudante Adriana Neves, de 13 anos, imigrante de Angola, agradeceu por fazer parte do projeto, evidenciando a chance de criar novos sonhos para sua vida: “Adorei a conversa, o kit, e estou animada com o que vem por aí. A gente precisa falar mais sobre a importância da escola pública, da educação para todo mundo e de como ser quem a gente quiser ser”. 

Nesse mesmo sentido, a arte-educadora Dirce Thomaz, atriz e dramaturga com ampla trajetória, enfatiza que o trabalho cotidiano com as estudantes parte do reconhecimento de suas vivências e contextos sociais: “Nossas histórias são diferentes e, ao mesmo tempo, muito próximas. Por isso, trabalhamos com histórias de vidas, e a gente assume esse compromisso de cuidar da gente desse jeito: conhecimento e arte”. Assim, o projeto reafirma a centralidade da arte-educação como ferramenta de formação crítica, fortalecimento identitário e construção coletiva.

Do mesmo modo, Andressa, jovem-aprendiz que acompanha de perto as atividades, destaca o entusiasmo com a nova etapa: “Estamos animadas com mais essa fase, novos aprendizados, além de tudo que já realizamos, como o cortejo afro, no fim do ano passado”. A continuidade das ações revela a consolidação de vínculos e processos formativos construídos ao longo do projeto.

Paralelamente às atividades formativas, as participantes também participaram dos grupos focais que integram uma pesquisa do eixo de educação do Instituto Peregum, que será lançada em breve. O estudo investiga trajetórias educacionais e reafirma o direito à educação das juventudes brasileiras. Nesse contexto, Adriana Moreira reflete sobre o processo: “Valorizando as múltiplas trajetórias dos universos das meninas, a gente vai passo a passo construindo e alimentando os sonhos profissionais, com vistas ao acesso e permanência nas universidades e outras vidas possíveis para meninas e mulheres negras”.

Incidência internacional e engajamento da agenda de educação, raça e gênero

Entre as ações do Programa Malala Peregum, assim como o projeto  Firminas e Mahins,  o Instituto de Referência Negra Peregum fortaleceu sua presença em espaços internacionais de incidência política com a participação na 70ª Sessão da Commission on the Status of Women (CSW), Comissão sobre o Status da Mulher, realizada no fim de março em Nova York. À ocasião, Peregum contribuiu na para o debate global que se centralizava em torno no acesso à justiça propondo para o se combater os matrimônios infantis a garantia do acesso e da premência na escola seriam direitos fundamentais a serem garantidos. Desenvolvimento de políticas públicas direcionadas à permanência escolar específicas para meninas dos grupos racialmente sujeitados, no período de transição dos anos finais do ensino fundamental para o ensino médio.

De acordo com Beatriz Lourenço, diretora de Áreas e Estratégias do Peregum, a incidência nesse espaço envolve disputas complexas na construção dos consensos internacionais. Ainda assim, graças à mobilização de organizações da sociedade civil e à articulação da diplomacia brasileira e latino-americana, o direito à educação de meninas negras foi incorporado às chamadas Agreed Conclusions, documento final que orienta compromissos globais sobre os direitos das mulheres. Dessa forma, o Programa Malala Peregum que impulsiona o projeto Firminas e Mahins e  tem a capacidade de realizar ações que ao mesmo tempo em que tenham a dimensão do território captam demandas políticas globais contribuindo, desta feita, não apenas, para a elaboração de táticas de enfrentamento nos territórios como para a elaboração de aliança internacionais alinhadas com a agenda da garantia do acesso e da permanência na escola de meninas negras e imigrantes como um caminho para a promoção de justiça no mundo.