
Atividades gratuitas integram o programa que amplia a participação de pessoas negras nos concursos públicos e carreiras jurídicas
Os dois primeiros encontros do Ciclo Encontros Garcia: Trajetórias Negras e Saúde Mental nos Concursos Jurídicos debateram temas que, embora possam parecer desassociados são ligados: saúde, tanto física quanto mental, e o cenário transformador das tecnologias e os impactos na preparação para prestar concursos públicos. Com cerca de 120 participantes online, de todo o país, os debates foram marcados pela participação ativa de estudantes do Programa Esperança Garcia. Organização pessoal e masculinidades e saúde serão as temáticas dos próximos encontros que acontecerão em maio. Se você é pessoa negra e está se preparando para ingressar nas carreiras jurídicas, participe. Inscreva-se aqui.
O debate sobre saúde mental e os impactos do racismo na população negra foi introduzido por um panorama sobre a detenção de poder no campo da medicina pelo médico e psiquiatra, Cleber Firmino, também cofundador da UNEafro Brasil e conselheiro do Instituto de Referência Negra Peregum.
Segundo Cleber, o estudo no campo da saúde já demonstra as desigualdades baseadas em hierarquização de raças a partir de teorias de inferioridade biológica, voltadas ao chamado racismo científico. A defesa de que pessoas negras seriam biologicamente inferiores pela medição de crânios (craniometria) e interpretações distorcidas da evolução humana é um exemplo disso. Outro argumento se apresentava quanto à maior resistência à dor. Médicos defendiam e difundiam o mito de que pessoas negras sentiriam menos dor, justificando práticas extremamente violentas e experimentos médicos sem anestesia, como os realizados em mulheres negras escravizadas por um médico estadunidense no século XIX.
Inclusive, como pontuou o médico, “o racismo afeta a nossa saúde desde que estamos na barriga das nossas mães”. Dados de estudos da Fiocruz e do Ministério da Saúde, com base em registros entre 2018 e 2023, revelam: mulheres negras têm até o dobro de risco de morte materna no Brasil. Além disso, as consequências afetam os bebês já que há maior risco de morte neonatal e infantil, baixo peso ao nascer e doenças evitáveis ligadas à falta de pré-natal entre crianças negras, há piores indicadores de saúde já no início da vida, relacionados ao acesso à saúde desigual das mães. A participante Suely Costa, do Rio Grande do Norte, colaborou com o debate, despertando atenção para algo anterior: a violência que vitimiza essencialmente mulheres negras por meio de estupros.
Tópicos como indíces de suicídio, uso de ácool e drogas entre jovens negros, assim como a taxa de depressão entre a população negra foram refletidos. Sobre o último, foi reiterado o dado de que a população negra enfrenta maior sofrimento psíquico e menor acesso a diagnóstico e cuidado no Brasil. Diante disso, a mediadora do encontro, Sulamita Jesus, psicóloga do Programa Esperança Garcia, destacou que é notório observar que alguns participantes do programa têm pela primeira vez acesso ao apoio emocional profissional. De acordo com ela, é primordial ressaltar o cuidado psicológico individual, além de práticas de afeto, de descanso, com objetivo de viver integralmente, para além da lógica exclusiva de sobrevivência, bastante comum entre pessoas negras e periféricas. “Existe um contexto cultural que constrói quem somos, outro contexto social que diz qual nosso valor, daí o distanciamento em relação ao nosso cuidado. Por isso, nesse percurso com estudantes do Programa é trabalhar por uma brecha nessa virada de chave, a do cuidado com nossa saúde física e mental”, reforça Sulamita.
Nesse sentido, o médico e psiquiatra Cleber Firmino reflete: “a saúde mental precisa ser compreendida como um direito fundamental. No Brasil, isso passa necessariamente por enfrentar desigualdades históricas, incluindo o racismo, que impacta diretamente o acesso ao cuidado, o diagnóstico e o tratamento da população negra.”
Como pilar, o apoio emocional do Programa Esperança Garcia dispõe de suporte psicológico, mentorias e acolhimento para concurseiras e concurseiros negros e quilombolas. O próprio Ciclo Encontros Garcia: Trajetórias Negras e Saúde Mental nos Concursos Jurídicos é um espaço online para formação técnica aliada à partilha coletiva.
Associado a isso, a preparação para um concurso público nas carreiras jurídicas exige organização pessoal e intensos estudos, o que diante das desigualdades sociais e das subjetividades dos indivíduos pode favorecer o adoecimento. Por isso, a participação da advogada Fernanda Macedo contribuiu com reflexões e metodologias específicas de estudos com vistas às possibilidades de cada pessoa e desconstruindo a ideia de que a tecnologia está substituindo o esforço cognitivo.
“Como você estuda hoje?” foi uma pergunta disparadora no segundo encontro do ciclo mediado pelo supervisor pedagógico do Programa Esperança Garcia, Jonathan Ribeiro. Focado em refletir acerca de técnicas de estudo, organização e gestão emocional, o encontro teve a professora Fernanda Macedo, que atua com diversidade, governança e inovação no setor jurídico, como palestrante. Para ela, falar em estudo é reconhecer que embora exista um desafio pedagógico atrelado ao uso da tecnologia, podemos usá-lo a nosso favor de forma crítica, ética e criativa.
Estudo com vídeo-aula, leituras de artigos, realização de simulados, usar questões para estudantes direcionados sobre tema específico, definir qual concurso e qual banca irá prestar pode facilitar o percurso de preparação, metodologia de repetição são maneiras muito boas. A elas, Fernanda Macedo acrescentou a análise de relação casuística entre memória, emoção e aprendizagem. Segundo ela, “a gente só fixa o que faz sentido para nós, o que a gente compreende, o que nos emociona”, enfatiza.
Fernanda segue: “defendo que você não faz prova para passar, você faz prova até passar. E estuda até passar, adquirindo as manhas, os formatos, e a forma correta de estudar, com tudo isso é uma questão de tempo. Existe uma causalidade entre estudo e tempo que é importantíssima nesse processo. Considerando, ainda, que o tempo ideal de estudo é o tempo que cada pessoa tem”.
Diante disso, fica evidente compreender que a construção de trajetórias no caminho da preparação para concursos públicos não pode estar dissociada do cuidado com a saúde mental e física. Se, por um lado, estratégias de estudo aliado às tecnologias fortalecem o aprendizado, por outro, é a capacidade de adaptar essas ferramentas à realidade de cada pessoa, com respeito ao próprio tempo e condições materiais, levando em conta as emoções, que sustentam a continuidade dos estudos. Portanto, o tempo de estudo não tem regra única, é singular para cada pessoa e reforça que a preparação não se resume à intensidade, e sim à constância viável, justamente aquela que permite seguir estudando até passar, sem comprometer a própria saúde e as relações sociais.
O Ciclo Encontros Garcia: Trajetórias Negras e Saúde Mental nos Concursos Jurídicos integra o Programa Esperança Garcia, desenvolvido pelo Instituto Peregum, AGU (Advocacia Geral da União) e MIR (Ministério da Igualdade Racial). Os próximos 4 encontros devem apresentar temas voltados à organização pessoal e financeira, masculinidades e diversidades no campo da saúde. Participe! Você pode se inscrever em quantas atividades desejar. Todos os retornos, incluindo o link de acesso às chamadas e outras informações importantes, serão enviados por e-mail. Inscreva-se.
Texto: Juliana Vieira